Incentivo à cultura trouxe aos jovens de Fernandópolis responsabilidade e elevação da autoestima

September 30, 2009 at 1:25 am Leave a comment

 

Nova geração mantém o sopro das artes deixado por idealizadores da década de 70

POR DANIELA ORTOLAN E THIAGO ESCREMIN

As facetas artísticas de Fernandópolis, interior de São Paulo

As facetas artísticas de Fernandópolis, interior de São Paulo

O teatro é um dos movimentos artísticos que mais envolve as expressões do corpo e da mente e, também, o que mais requer compreensão histórico-social e dos sentimentos. E é isso que motivou os profissionais da educação a incentivar a introdução dessa arte na escola. Os educadores têm notado que as artes cênicas podem ser instrumento eficiente para desinibir os alunos introvertidos de hoje.

Juliana Buosi Shiroma, 27 anos, coordenadora do Ensino Médio e professora de Língua Portuguesa da Escola Técnica Estadual – Centro Paula Souza – de Fernandópolis, foi a primeira a incentivar o teatro na escola, que está em atividade há quase três anos – dois com teatro gratuito aos alunos interessados. “O estudo de texto teatral incentiva a ler outros textos relacionados e, com isso, eles (os alunos) conseguem gerir e gerar novas ideias, amadurecendo-os como leitores e redatores”, afirma Juliana.

Nas oficinas e durante as montagens de peças o ator-estudante trabalha o corpo, a respiração e a concentração, aprendendo a se conhecer melhor, se avaliar e se gostar, pois o seu instrumento de trabalho é o corpo e como ele se relaciona com o mundo. A educadora sente melhoras quanto aos trabalhos em grupo. “Os alunos do teatro se relacionam melhor em grupo, são mais solidários e conseguem explorar o potencial cognitivo, psicológico e social”.

As mudanças não acontecem somente nas salas de aula. Em casa, os pais também percebem mudanças. Para a mãe da aluna Isabela Campoli, Maria Laide Campoli Medeiros, 44, escrevente técnico-judiciário, o teatro proporcionou melhores diálogos em casa. “Minha filha não é mais tão tímida, se expressa melhor falando e escrevendo e está cada dia mais amorosa dentro de casa”.

E quando o assunto é teatro, não há discussões e nem repressões. Os ensaios são sagrados para Isabela. “Ela gosta muito de fazer teatro e o melhor foi que ninguém precisou incentivar, partiu dela. A semana que não tem ensaio, minha filha sente falta”, diz Laide.

Em Fernandópolis essa prática é exercida há anos na maioria das escolas estaduais, municipais e particulares. Os alunos montam anualmente suas peças, sempre com a supervisão de algum professor ou profissional da área e, por fim, apresentam na Mostra Estudantil de Teatro – o maior evento da arte na cidade.

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Jovens reconhecem a importância das artes em suas vidas

 Diferentemente de outras cidades do interior paulista, Fernandópolis estimula a prática teatral em quase todas as suas escolas, sejam elas públicas ou particulares. O que o teatro representa na vida daqueles que sobem ao palco, ainda na infância e adolescência, tem o seu efeito sentido no dia-a-dia e no convívio com familiares e com amigos.

Quando perguntados sobre o que as artes cênicas significavam antes de praticá-las e o que elas significam agora em suas vidas, a resposta dos jovens entrevistados foi unânime: a sensação é de completa modificação e de bem-estar. “Meus pais passaram a acreditar mais em mim a partir do momento em que comecei a atuar. Sinto-me mais segura e fico emocionada ao vê-los na plateia“, afirma Isabela Campoli, 16 anos, da turma de Teatro da Etec – Escola Técnica Estadual – de Fernandópolis.

A mãe Laide e a atriz Isabela Campoli

Laide, à esquerda, se sente orgulhosa de ver Isabela no palco

Além da desenvoltura, percebida nos primeiros minutos de conversa, o teatro estimulou, nesses adolescentes, o crescimento da autoestima e da autoconfiança. Apesar da pouca idade, os atores mostram ter personalidade forte e atuante. Daniel Constantino, 16, da Escola Estadual “Saturnino Leon Arroyo”, se diz melhor preparado para apresentar trabalhos em sala de aula e, quando do momento de ser entrevistado para um emprego, garante que se sentirá seguro.

A tradição teatral é cultivada nas novas gerações. Todo o investimento feito durante décadas para estimular a produção cultural e o consequente esforço do jornalista – e visionário – Merciol Viscardi deram a noção da importância das artes na formação dos jovens e, indubitavelmente, tem surtido efeito. “Teatro é a expressão da liberdade! É uma vida nova que escolho viver por alguns minutos”, assegura Gabriela Luciana, 16 anos, aluna da Etec.

 

Fazendo a história

 Há quase quatro décadas, a cidade vem consolidando suas atividades teatrais

 Merciol Viscardi, o Lolo, foi o personagem principal dos movimentos artísticos de Fernandópolis

 

Fernandópolis abriu seu guarda-chuva cultural na metade da década de 1970, época da radicalização de experiências comportamentais, quando os jovens se mudavam para a capital para ingressar nos grandes centros universitários. Eles voltavam, durante as férias, cheios de ideias e vontade de mostrar para a pacata cidade interiorana o que era arte e o que eram capazes de fazer quando o assunto era contracultura. Aquele antigo desejo de mudar o mundo (o sentimento pós-guerra) deu lugar ao encontro do “consigo mesmo”, característico da época.

A grande figura dessa época foi o lendário Merciol Viscardi, o Lolo (1953–1997). Formado em Jornalismo pela Universidade de São Paulo, a USP, Merciol participou – como organizador, como promotor e até como produtor – de diversos movimentos estudantis, políticos, comunitários e artístico-culturais na década de 70, em Fernandópolis. Essas ações, entre outras conquistas, culminaram na criação da Casa de Cultura, transformada, hoje, no Centro Cultural.

Entre 1973 e 1976, Lolo foi diretor de divulgação da AFA – Associação Fernandópolis Acadêmica – entidade que congregava os universitários e organizava a Semana Universitária, promoção que trazia à cidade grandes shows, palestras, feiras de arte e literatura e espetáculos teatrais, entre outros eventos. Como jornalista e pensador, Merciol escreveu em diversos jornais de Fernandópolis, no “Jornal Dia e Noite” e “O Patologista”, de São José do Rio Preto, em “A Razão”, do Rio de Janeiro, no “Jornal de Paranaíba”, de Paranaíba-MS, entre outros.

Vic Renesto, amigo de Lolo e hoje editor-chefe de O Cidadão

Vic Renesto, amigo de Lolo e hoje editor-chefe do Jornal Cidadão

Vic Renesto, outro jornalista precursor da cultura fernandopolense – grande amigo de Lolo; hoje editor-chefe do Jornal Cidadão, conta algumas peripécias de Merciol: “O Lolão? Era o maior entusiasta, um dos que mais trabalhava e também o que mais fazia cagadas. Uma vez, ele mandou fazer 20 faixas sobre a semana universitária e a gente tava sem grana. Corremos lá, já tinha feito oito. ‘Para nas oito!’, falei. Essas oito, pagamos. Ele era assim: se queria fazer uma promoção, tava se lixando para as consequências financeiras”.

Outra história engraçada aconteceu com o músico João Bosco. “Uma vez, Lolão foi numa locadora de automóveis em São Paulo e alugou um Galaxie pra trazer o João Bosco. Nosso tesoureiro quase pirou. Aconteceu que o empresário dele (do João Bosco) não quis viajar no Opala do Helinho Maldonado, que estava lá em Congonhas para trazê-lo. Anos depois, em 80 e 81, o João Bosco tava brigado com a gravadora RCA e precisou fazer uns shows pelo Circuito Universitário do Interior Paulista pra ganhar uns trocos. Aí, ele viajava era no meu Corcel! Quantas viagens fizemos… Americana, Ribeirão, Fernandópolis, São Carlos. Eu botava o violão dele (um Suguiyama feito à mão) no porta-malas e ele falava: ‘se bater o carro, bate de frente ou de lado, viu?’ Ele não tinha medo de morrer: tinha medo era de perder o violão!”, conta Vic.

Além dos trabalhos jornalísticos, Lolo publicou, em 1985, pela Comunic’Arte/Mirante Editorial, o livro “Coletânea de Artigos”. Nesta obra, diz o jornalista “quando a gente acredita numa coisa, faz uma coisa com convicção e amor, essa coisa nunca morre. A chama se mantém acesa, nós passamos, mas nossas ideias permanecem”.

Merciol Viscardi, visionário e precursor dos movimentos culturais

Pintura feita por Vani Saunders de Merciol Viscardi, visionário e precursor dos movimentos culturais

Quando o Teatro Municipal foi erguido, não havia nome melhor a ele: “Merciol Viscardi”. “Lolão certamente gostaria de ter participado de sua inauguração. Aquele maluco estava dentro de qualquer movimento que chamavam de arte”, assim disse Vic Renesto, emocionado como sempre fica ao falar de seu bom amigo Viscardi.

 

As artes plásticas de Torricelli

Bira acredita que o artista deve ter a liberdade para criar objetos do seu próprio modo

 

 A época também foi marcada pelo artista plástico Bira Torricelli, que trabalha em sua casa, usando papel, lápis, giz de cera, pastel e às vezes carvão. Com esses materiais cria desenhos cheios de técnica, precisão e beleza. Não é à toa que tem suas obras expostas em grandes salões de artes por todo estado. Entre eles em Franca, Catanduva, Araras e capital.

É visível que seu trabalho é impar – há quem diga que há influências de Picasso, Portinari e Di Cavalcanti – mas Bira não faz nem releituras desses artistas, apesar de gostar muito. “Eu não tenho influências de nenhum artista, faço aquilo que eu desenvolvi, o que eu gosto de fazer”, explica.

Até mesmo quando é chamado para dar aulas de desenho, recusa. “Não vou ensinar a copiar, sou totalmente contra. Os artistas devem criar e desenvolver seus estilos”, adverte.

“Antes, os jovens pediam emprestados salões desocupados para fazer exposições de arte, todos se mobilizavam para o evento. E hoje, que existem duas instituições universitárias e o Centro Cultural Merciol Viscardi, não acontece nada de iniciativa dos estudantes”, comenta Bira, nostálgico.

 

A ascensão do SOS Teatro

 Em meados de 87, a Secretaria de Estado da Cultura lançou o projeto “Teatro Comunitário”, que enviava para o interior oficineiros responsáveis por treinar jovens que se sentissem motivados pela arte. Fernandópolis teve a grande honra de receber os atores Wilma de Souza e Zeno Wilde que deixaram seu legado ao casal Elaine e José Antônio Araújo Silva (o Zecão), Rina Almeida, Iraci Pinotti, Luís Henrique Catanoze, Fernando Barroso, Eduardo Catanozi e tantos outros, que também foram os pioneiros do que há de melhor no aspecto cultural da cidade. Se os jovens de hoje têm um teatro aconchegante para assistir a uma peça ou a uma mostra cultural é porque esse grupo pagou o preço de reivindicar e nunca desistir diante das adversidades, que não foram poucas.

O Teatro Comunitário chegou em boa hora: os movimentos culturais fernandopolenses haviam estagnado durante anos, mas receberam um novo fôlego com o projeto. Montaram peças como “O trem fantasma”, “Todas as histórias já foram contadas”, “Como o vento”, “O grito do cachorro”, “Baú de Retalhos” e “Palhaços”.

Foi nessa oportunidade que surgiu o SOS Cultura, com o intuito de promover mais eventos na área, porém, perceberam que era um passo muito longo e resolveram centrar as atividades apenas nas artes cênicas, tornando, assim, SOS Teatro.

Com essa formação montaram os espetáculos “A Vaca Lelé”, “Lampião e Maria Bonita no Reino Divino”, “Enfim, sós”, “Um trágico Acidente” e “Na Carreira do Divino”. Por 10 anos, o SOS Teatro viveu sob a mira dos holofotes e das premiações. “Em alguns festivais chegamos a levar 12 de um total de 14 prêmios. Foi um resultado muito maior do que o grupo sonhava”, relembra Eduardo Catanozi, que foi diretor do grupo durante esse período áureo. Atualmente, Catanozi é coordenador do curso de Letras da Unifev e continua a exercer trabalhos teatrais em São José do Rio Preto onde ganhou neste ano o Prêmio Nelson Seixas de Fomento à Produção Cultural.

O fim do SOS Teatro se deu porque seus integrantes, que eram jovens quando da época de sua criação, deram novos rumos às suas vidas.

 

Fome de cultura: os movimentos da atualidade

 Um outro projeto que ganhou vida por esses desbravadores culturais foi a Mostra Estudantil de Teatro, que atualmente ganha esferas regionais e reconhecimento: a melhor mostra estudantil de teatro do estado de São Paulo.

Encenação de romaria; as temáticas são variadas

Encenação de romaria; as temáticas são variadas

Iniciada em 1995 com 14 grupos amadores de teatro de escolas de Fernandópolis, a Mostra Estudantil completa, na edição 2009, 14 anos de apresentações. Em 2007, o festival abriu suas portas para grupos de toda região, contabilizando a participação de 20 grupos teatrais.

O evento surgiu com o objetivo de promover e divulgar a cultura do teatro em Fernandópolis, oferecendo a oportunidade de crianças e de adolescentes desenvolverem o hábito de assistir e inserir o teatro em suas vidas. A primeira edição da Mostra foi realizada no Centro do Professorado Paulista (CPP), entre os dias 11 e 19 de novembro de 1995. No ano seguinte, o festival teatral aconteceu no antigo Cine Santa Rita, e teve a participação de 13 grupos da cidade. Depois, em 1997, foi o Shopping Center Fernandópolis que sediou a 3ª edição do evento.

A partir de 1998, a Mostra Estudantil começou a ser realizada no Teatro Municipal Merciol Viscardi, ainda em fase de acabamento e sem cadeiras. Este ano marcara o Teatro Municipal como sede oficial da Mostra Estudantil Teatro de Fernandópolis. Até o ano 2000, eram apresentadas duas peças diferentes por dia, uma a tarde e outra à noite. Em 2001, o cronograma das apresentações foi alterado para possibilitar que um maior número de espectadores assistisse às encenações. Com isso, a mesma peça passou a ser apresentada duas vezes no mesmo dia. Essa mudança aumentou também o calendário do Teatro, passando de 10 para 20 dias em média.

Em 2007, a Mostra inovou novamente, colocando o júri mais próximo dos estudantes. Realizou-se um debate entre o diretor, os atores e os jurados, promovido pela equipe coordenadora do evento, no dia seguinte da apresentação, possibilitando, assim, maior e mais detalhada troca de informações entre a equipe técnica e os participantes da mostra.

No ano de 2008 a novidade foi poder optar por apenas participar ou concorrer às classificações das melhores em várias categorias. Na edição que está por vir, nos meses de outubro e novembro, a Mostra será apenas participativa.

O quadro artístico de Fernandópolis é bem amplo para uma cidade de 60 mil habitantes: Coral de Violas, Museu Municipal, Orquestra de Sopros, grupos teatrais, artistas plásticos que expõem suas obras pelo Brasil e no exterior, o grupo de dança de rua “Street Boys” – ganhador de vários prêmios e fomentador de moda na Europa; o seu idealizador, João Black, está há aproximadamente um ano fora do país, apresentando-se em Lisboa e Paris –, e muitos outros anônimos que estendem varais pela praça central e pregam poesias para serem lidas em qualquer bela segunda-feira de sol pelos trabalhadores que passam todos os dias pela Matriz. E entre um “sinal-da-cruz” e outro, declamam Cecília Meirelles, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, dentre outros eternos milagres da literatura.

A Osfer - Orquestra de Sopros de Fernandópolis - em uma de suas apresentações

A Osfer - Orquestra de Sopros de Fernandópolis - em uma de suas apresentações

A arte nasce estampada na pele, ou como diz Rina Almeida, “arte é sangue”. Sem dúvida. Mas é, sobretudo, uma forma diferenciada, sensível e criativa de observar o mundo à sua volta – e lhe devolver, em forma de arte, as sensações absorvidas.

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